A HORA DO PASSEIO
- Marcelo Marques Junior
- 25 de nov. de 2021
- 1 min de leitura
Acordo, sem querer levantar. Vejo o paletó pendurado na cadeira, a camisa no armário. Visto-os, escolho a melhor gravata e a coloco até sentir-me esganado.
Hum, ouvi um barulho, será que acordou? Vou fazer barulho daqui para ele ver que eu também estou acordado. Será que hoje ele fica?
Ouço barulho, foi isso, então, que me acordou. Vou abrir a porta para ver se para de fazer alarde, daqui a pouco os vizinhos vão me ligar. Abro a porta e sou festejado, como se voltasse da guerra.
Ah, finalmente, a porta abriu. Que saudade que eu estava! Mas, perai, vejo que ele está vestido para o passeio dele. Já está até de coleira, acho que hoje eu fico em casa.
Pronto, é só abrir a porta que ele acalma. Já está deitado num canto, olhando para mim. Afrouxo a gravada.
Ele vai tirar a coleira?
Não, não, melhor deixar no jeito, senão vou esquecer e chegar assim na empresa. Aperto a gravada.
Não, ele apertou. Agora vai passear. O que eu queria mesmo saber é quem puxa essa guia dele. Quando passeamos ele que me puxa.
Bom, melhor eu ir, senão meu chefe vem me buscar.
As vezes fico parado querendo olhar a natureza e ele me puxa, não me deixa viver como quero. Mas deve ser assim mesmo, se não fizer assim, não me encaixo e não consigo viver socialmente.
Esses dias, enquanto andava, bradaram para mim. Que ódio eu senti, bradei de volta. Acho que era a minha energia represada dentro da coleira apertada.
Bom, é isso. Para mim, sem coleira, sem passeio.
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